VOCÊ QUER CHUTAR O BALDE? DESENVOLVA O AUTODOMÍNIO E A TEMPERANÇA

Fonte: https://stryptor.pages.dev/mafalda/08/013/

Você quer chutar o balde? Desenvolva o autodomínio e a temperança

Felipe caminha pela rua e vê uma latinha. Pensa em dar um chute nela, mas desiste e segue em frente. A cena não termina aí…

É uma tirinha icônica da Mafalda (Quino), com o primo Felipe, que representa a importância do autodomínio e da temperança — competências difíceis de desenvolver num mundo sujeito a tantos estímulos. Desse modo, para muitos, a Quaresma é um período de introspecção mais profunda, que nos convida à prática do jejum, da abstinência, da caridade e da oração. Porém, qual é o sentido de tais práticas? O que podem representar jejum, abstinência, caridade e oração num mundo tão volátil? Creio que são passos a mais no caminho da maturidade emocional, que exige sabedoria e discernimento; equilíbrio; empatia e compaixão; paciência e tolerância; fortaleza; e autodomínio e temperança (Monsenhor Munilla).

Comecemos por entender o que são autodomínio e temperança, qualidades importantes para não chutar a lata — ou o balde — no momento inadequado.

Autodomínio pode ser entendido como a capacidade de não agir movido pelas emoções em atitudes de reação imediata. Quantas vezes você teve vontade de chutar a lata ou o balde? Cada um de nós sente raiva, frustração, ansiedade ou medo, mas o autodomínio permite que não sejamos governados por tais emoções. Assim, você assume a condução do carro da sua vida, não sendo movido pelos seus impulsos.

E a temperança, o que é? É uma competência complementar ao autodomínio, fundamentada na capacidade de equilibrar emoções, desejos e atitudes. A temperança traz à tona o discernimento que nos conecta com a sabedoria, impedindo que o autodomínio se transforme em repressão ou frieza.

Como levar o autodomínio e a temperança da Quaresma para o trabalho?

Na Quaresma, como exercício espiritual, pratica-se o jejum de alimentos; na empresa, como competência de desempenho, você pode jejuar do uso das redes sociais para fins pessoais durante o horário de trabalho. Aceita o desafio?

Na Quaresma, como exercício espiritual, pratica-se a abstinência de falar mal de pessoas ausentes; na empresa, você pode se abster de espalhar fofocas sobre os colegas. Está disposto a isso?

Na Quaresma, como exercício espiritual, pratica-se a caridade ao ajudar famílias em vulnerabilidade social; na empresa, você pode ser caridoso ao reconhecer os méritos de alguém com quem não simpatiza. A quem você vai reconhecer?

Na Quaresma, como exercício espiritual, pratica-se a oração com mais intensidade; na empresa, você é convidado a refletir sobre a importância daquilo que faz e o impacto na vida dos outros. Qual é o sentido daquilo que você faz?

Ao levar as práticas espirituais para o ambiente organizacional, as conversas difíceis se tornam mais fáceis, o tempo passa a ser gerido de acordo com as prioridades e as decisões precipitadas dão lugar às decisões conscientes. Com isso, a liderança se manifesta com o autodomínio e a temperança de quem tem equilíbrio. É a partir do autodomínio e da temperança que se demonstra maturidade emocional.

Desse modo, na Quaresma, ao se propor a jejuar — assim como a se abster de algo que você deseja muito e tem acesso em abundância — você realiza um treinamento de autodomínio e temperança. Da mesma forma, praticar a caridade permite que você se sinta bem com aquilo que faz, assim como a oração o alinha com o sentido da vida. Isso ajuda a evitar que você chute a lata ou o balde quando não deveria.

Felipe, depois de passar pela lata, voltou e deu-lhe um pontapé, para em seguida se arrepender: “Que desastre! Até as minhas fraquezas são mais fortes do que eu…”

Por isso, exercitar o autodomínio na Quaresma é uma prática que reconhece as nossas debilidades, treina o controle sobre os impulsos e desenvolve a temperança para tomar a melhor decisão. Porque, muitas vezes, ao chutar uma lata aparentemente vazia no impulso, encontra-se uma pedra no seu interior.

Você já chutou a lata ou o balde quando não deveria? Pratique o autodomínio e desenvolva a temperança.

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Moacir Rauber

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FORTALEZA EMOCIONAL: A FORÇA QUE NASCE DA DOR

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FORTALEZA EMOCIONAL: A FORÇA QUE NASCE DA DOR

O ano passado terminou com a perda de um amigo, mas a mensagem de fim de ano enviada por sua esposa foi uma verdadeira aula de amor e fortaleza. Entre outras palavras, ela escreveu:

“O ano em que eu perdi o chão, o rumo, a direção… conheci a dor que não passa, que alucina e que remédio nenhum no mundo tira: a dor de perder o amor da minha vida! Meu par, o pai dos meus filhos! Mas, em 2025, eu também vivi o AMOR de Deus intensamente… O amor de atitude, o amor que é alento na cruz!”

Está expresso na mensagem o que é fortaleza emocional e como ela se manifesta. A vida traz dor e sofrimento, inerentes a cada ser humano. Por isso, São Josemaría Escrivá pergunta: “Se a dor acompanha o ser humano, o que é senão tolice desperdiçá-la?”. Com essa provocação, ele nos coloca diante do melhor do ser humano: a fortaleza frente às adversidades.

O que fazer com a dor e o sofrimento?

Ano passado, acompanhamos a perda de um amigo querido. Ele era marido, pai, irmão, filho, tio, padrinho, profissional e amigo de muitos. Sua batalha foi contra uma enfermidade que o acometeu e o levou em menos de um ano. Tinha fé, e nela encontrava força. Tinha sua família — esposa e três filhos — e nela encontrava base. Sua fortaleza surgiu da combinação entre a força da fé e o apoio da família. Recebeu consolo, mas consolou ainda mais. Viveu plenamente e partiu serenamente.

E como fica quem fica?

Em tempos de tanta fragilidade emocional, as palavras que abrem este texto mostram o que é fortaleza. O testemunho da esposa, na mensagem enviada aos amigos, revela o que fazer com a dor ao viver a perda de alguém amado: apoiar-se em fundamentos sólidos, como a fé e a família.

E o que se entende por fortaleza emocional? Trata-se da capacidade de encarar e assumir as próprias emoções sem perder o equilíbrio diante das adversidades. Não há receita para enfrentar a finitude da vida de alguém que faz parte da nossa história, especialmente quando ela chega numa fase em que “não seria ainda o seu tempo”. A dor e o sofrimento surgem, mas cada um determina seu estado de ânimo. A fortaleza emocional se revela na habilidade de atuar eficazmente diante de situações desafiadoras, adaptando-se a elas de forma saudável. Consiste em ser valente sem agredir ou se deprimir, e nisso a força da fé e da família faz toda a diferença. Exibir fortaleza não significa ignorar a dor, mas seguir em frente apesar dela.

A esposa expressou sua dor e sofrimento, admitindo ter ficado sem chão e sem rumo. Ficou sozinha com três filhos ainda pequenos. Não há magia capaz de eliminar os sentimentos pela perda do amor de sua vida, do pai de seus filhos, do amigo de todos os momentos. Entretanto, a força da fé e a base da família oferecem o sustento nesse momento.

Muitos amigos se fizeram presentes. O tempo os manterá próximos por um período; depois, cada um seguirá seu caminho. A família, porém, permanecerá sempre, assim como a fé é a fortaleza que nos mantém no caminho da esperança. Esperança em quê? Em não desertar da eternidade que nos espera ao compreender o sentido da vida.

A fortaleza exige vigor, que ela demonstrou na postura ativa diante de tamanha adversidade. Exige firmeza para manter a determinação quando tudo parece desmoronar. Exige coragem para seguir em frente num movimento de autopreservação e responsabilidade com aqueles ao redor.

Por isso, a mensagem recebida ecoa em mim como expressão de fortaleza emocional. Ela concluiu dizendo:

“Muito obrigado! Porque foram atitudes, como as tuas, que sustentam a certeza de que Jesus nascerá todos os dias, pois em cada gesto de amor e generosidade se faz um ano cheio de esperanças!”

Nós é que agradecemos!

Moacir Rauber

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MATAR UMA PULGA COM UM CANHÃO…

Matar uma pulga com um canhão…

Estava tendo uma conversa difícil com um amigo e, a partir de determinado momento, passei a falar mais alto. Não se tratava de ofensas, agressões ou palavras duras; apenas falava de um modo que até os vizinhos poderiam ouvir. Tenho o hábito, já identificado, de elevar o tom de voz sempre que me sinto confrontado, questionado ou desafiado. Isso ocorre tanto nos diálogos cotidianos quanto em discussões mais específicas, como era o caso.

Minha esposa, que me conhece bem, passou por mim e fez um sinal para que eu baixasse a voz. Ao vê-la fazendo o gesto, a ira tomou conta de mim. Ruborizei. Quase paralisei. Diminui o tom de voz, encerrei a conversa com meu amigo e perdi a paciência. Fiz uma série de gestos irritados e proferi expressões mal-educadas. Uma manifestação clara de que o caminho para a maturidade emocional ainda será longo.

O que fazer para exercitar a paciência e a tolerância como busca? Como ser paciente dentro de casa?

A sabedoria e o discernimento, o equilíbrio emocional, a empatia e a compaixão, assim como a paciência e a tolerância, fazem parte do decálogo que nos conduz à maturidade (Mons. Munilla). Talvez a paciência seja um dos elementos mais desafiadores para cada um de nós, pois basta lembrar que “Deus não nos dá a paciência, mas a oportunidade de exercitá-la”. Na cena descrita, eu perdi a oportunidade de exercitar a paciência e a tolerância.

Não tenho uma resposta definitiva para ser paciente e tolerante, mas tenho a vontade de aprender a dominar os ladrões interiores que sabotam essa possibilidade e me fazem colher resultados que não desejo. Muitas vezes, perdemos a paciência justamente com as pessoas mais próximas, enquanto engolimos sapos de relacionamentos menos importantes.

Entenda-se paciência como a qualidade de ser paciente, tendo como sinônimo a própria tolerância. Assim, paciência e tolerância revelam maturidade emocional, pois nos permitem suportar males, dores e sofrimentos sem revolta ou queixa. Não se trata de passividade, mas da capacidade de dialogar com os próprios limites e agir com sabedoria, discernindo com equilíbrio a partir da empatia e da compaixão. A melhor ação pode ser calar ou falar — ambas são ações.

Biblicamente, a paciência e a tolerância podem ser consideradas frutos do Espírito Santo, que nos conectam com a esperança e a perseverança. Esperança e perseverança em quê? Na construção de comportamentos pacientes e tolerantes, perseverando no caminho da maturidade emocional.

Ao registrar a queda por perder a paciência diante de uma situação banal, é fundamental parar, observar, reconhecer e mobilizar forças internas para aprender. O estímulo é externo, mas a impaciência e a intolerância são movimentos internos. Se algo externo produz um movimento tão brusco de impaciência que explode externamente, como aconteceu comigo, isso revela que, naquele momento, não suportava a mim mesmo.

Ao ser confrontado com o comportamento de falar alto — que reconheço e considero inadequado — eu poderia ter agradecido, me corrigido e usado o momento para aprender e me regular. Porém, a impaciência e a intolerância muitas vezes nos levam a matar uma pulga com um canhão e, por outro lado, a engolir sapos gigantes. Portanto, exercitar a paciência e a tolerância é aproveitar as diversas situações com as quais nos deparamos para fazer a melhor escolha, como alguém maduro emocionalmente faria.

Depois que passou o meu momento de descontrole, precisei recolher o orgulho do meu ego para pedir desculpas por um comportamento imaturo. Ela me perdoou, mas cada vez que é necessário pedir desculpas por imaturidade emocional a alguém que nos importa, fica uma marca no relacionamento. Não foi uma bala de canhão, mas penso num prego que deixou sua marca.

Quando foi a última vez que você percebeu que reagiu com força demais a algo pequeno — e o que isso revelou sobre você?

Finalmente, trilhar o caminho da maturidade emocional passa pelo exercício da paciência e da tolerância, perseverando para vencer por amor.

Moacir Rauber

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COMPAIXÃO OU COMPADECIDO: DE ONDE NASCE A TUA AÇÃO?

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COMPAIXÃO OU COMPADECIDO: DE ONDE NASCE A TUA AÇÃO?

A vida é dura, difícil e, muitas vezes, injusta. Pode-se concordar ou não, mas acredito que boa parte das pessoas pensam dessa maneira. Pais e mães de hoje desejam oferecer o melhor aos filhos e, por isso, proporcionam todo o conforto, as comodidades e a proteção que estão ao seu alcance.

Quando um pai diz ao filho de dezesseis anos, que se dispõe a ir de bicicleta à escola, por exemplo:

— Não, meu filho, eu te levo!

Trata-se de um gesto compassivo ou compadecido? Depende. Há uma diferença significativa entre as palavras que deve ser considerada. Penso que somente com a consciência dessa diferença a empatia e a compaixão surgem como caminhos para a maturidade emocional, que passa pelo equilíbrio emocional e pela sabedoria e discernimento (Mons. Munilla).

Agir de modo compassivo tem origem em um gesto de empatia autêntica, no qual se percebem as dificuldades e o sofrimento do outro, atuando-se para ajudá-lo sem avançar sobre sua autonomia. Por outro lado, agir de maneira compadecida envolve uma identificação emocional que coloca aquele que quer ajudar no centro do problema, sobrepondo-se ao outro. Assim, a ação compassiva resulta de uma atitude empática, consciente e respeitosa, enquanto a ação compadecida nasce da emoção da pena e da identificação com a dor alheia, muitas vezes a partir de uma experiência pessoal. Para marcar a diferença entre compassivo e compadecido, é preciso perguntar: qual é a origem da ação?

Percebo que, hoje, muitos pais agem de forma compadecida porque se identificam com a possível dor do filho, dor que nasce de uma ferida própria. Talvez os adultos que hoje têm filhos adolescentes tenham tido pais que, para os padrões atuais, foram demasiadamente duros. Possivelmente, quando crianças, tiveram de ir a pé ou sozinhos à escola, trazendo lembranças que evocam insegurança. Assim, diante da possibilidade de que o próprio filho possa sentir-se inseguro, fazem por ele aquilo que sentem que não fizeram por si. Surge, então, uma emoção intensa ligada à dó, à pena e à tristeza, levando-os a ações impulsivas, paternalistas e excessivamente protetoras. Esses pais não se perguntam se é positivo ou não para o filho ir de bicicleta à escola; agem movidos pela incapacidade de ver o outro sofrer por causa da própria dor vivida. Comportam-se, portanto, de modo a salvar, proteger e resolver pelos filhos, podando-os.

Por outro lado, os pais que agem por compaixão partem da percepção da dor ou do sofrimento do outro sem perder de vista o próprio equilíbrio emocional, mantendo o respeito, a autonomia e a dignidade de ambos. A compaixão, unida à empatia autêntica, não coloca quem ajuda em um lugar superior, pois preserva a capacidade de avaliar ações adequadas, ponderadas e úteis. Sobretudo, agir por compaixão nasce da real preocupação com o outro, e não do desejo de aliviar uma angústia pessoal. A compaixão empática coloca o outro no centro.

Enfim, qual é o problema em um pai oferecer-se para levar o filho à escola? A princípio, nenhum. Entretanto, é preciso refletir sobre as razões e as consequências dessa oferta. A oferta é por mim ou por ele? Responder autenticamente a essa pergunta revela a motivação. Em seguida, outra questão se torna essencial: o que a minha oferta produz? Esse ponto é crucial, pois ações compadecidas, ainda que aliviem uma dor inicial, tendem a gerar dependência, fragilidade, tristeza, melancolia e depressão, ao transmitir ao outro a mensagem de que ele não é capaz. Uma ação compassiva, ao contrário, tem clareza, presença, respeito, limites e equilíbrio — e eleva o outro.

De onde nasce a tua ação e o que ela produz?

Moacir Rauber

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Do “Me” que Acusa ao “Me” que Assume

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Do “Me” que Acusa ao “Me” que Assume

Como organizador, ele estava ao lado da porta de entrada do evento, saudando as pessoas que chegavam. Aproximava-se o momento da chegada do convidado da noite. O organizador se punha ansioso porque, além de ter sido o responsável por sua contratação, nutria profunda admiração pelo convidado. Porém, algo inusitado aconteceu: o convidado chegou, cumprimentou algumas pessoas e passou por ele sem sequer saudá-lo. O organizador murmurou:

— Ele não me cumprimentou…

Ficou indignado. Como assim, nem me olhou? Esse pensamento desencadeou uma série de emoções, considerando que havia sido ele quem o indicara e contatara para o evento. Por isso, esperava ao menos ser cumprimentado. As emoções que se manifestavam internamente o deixavam ruborizado externamente. Estava irritado, com raiva. Sentia-se ignorado e ofendido. Como assim? Ele não me dirigiu a palavra… seguia pensando, com as emoções revelando um desequilíbrio emocional.

O (2) Equilíbrio Emocional faz parte do decálogo da maturidade, iniciado com a (1) Sabedoria e Discernimento (Mons. Munilla). Entenda-se equilíbrio emocional como a capacidade de manter a estabilidade comportamental e bem-estar psicológico ao regular as emoções diante das adversidades do cotidiano.

Com isso em mente, pergunte-se quantas vezes você disse: “Ele não me respondeu”, “Ele não me cumprimentou”, sentindo-se ignorado ou ofendido por pessoas de quem você gosta ou por quem tem consideração? Precisamos aprender a tirar o “me” que acusa, para mudar o foco e alcançar o equilíbrio emocional que nos coloca no caminho da maturidade. Caso pensássemos apenas “Ele não respondeu” ou “Ele não cumprimentou”, evitaríamos a interpretação automática de ter sido ofendido ou ignorado.

Tais situações têm sido intensificadas pela falta de vocabulário emocional e por uma autoestima dominada pelo ego, fatores que dificultam o equilíbrio emocional e nos afastam do discernimento sábio. A ausência da espiritualidade que nos afasta do sentido da vida igualmente tem peso nisso.

A falta de vocabulário emocional nos mantém reféns das emoções e nos confunde sobre o que é ou não sentimento. As emoções são naturais; porém, para que se fale em equilíbrio emocional que conduza a um comportamento maduro, não podemos ser dominados por elas. Reconhecê-las para saber o que fazer exige autoestima sem o egocentrismo — tão comum quando o ego se manifesta no pensamento de ter sido “ofendido” ou “ignorado”.

Mas seriam esses sentimentos? Não. Sentimento é algo que vem de dentro, enquanto “ofendido” e “ignorado” surgem da interpretação do comportamento do outro. O fato de não ter sido cumprimentado gerou raiva e irritação, que poderiam se transformar em frustração — essa, sim, interna. Poderia dizer “Eu me frustro”, o que é diferente de dizer “Me sinto ofendido”. No primeiro uso do “me”, assumo a responsabilidade pelos meus sentimentos. No segundo, acuso e culpo o outro ao interpretar seu comportamento.

Destaco: caso a interpretação do comportamento do outro fosse exata, as demais pessoas não cumprimentadas pelo convidado deveriam estar irritadas com ele.

Outro ponto que dificulta o encontro do equilíbrio emocional é uma geração com “egos” inflados e, ao mesmo tempo, fragilizados, resultado do excesso de foco na autoestima. Ter boa autoestima é importante; entretanto, parece-me que avançamos para um egocentrismo narcisístico, no qual acreditamos que o mundo gira à nossa volta. A situação mostra que, ao não ser cumprimentado pela pessoa que admirava, emoções como raiva e irritação surgiram, revelando os falsos sentimentos de “ofendido” e “indignado”.

O que fazer, então, para encontrar o equilíbrio emocional — competência essencial da maturidade? Uma estratégia é mudar o foco do “me”, usando-o para assumir responsabilidades e não para culpar os outros. Isso exige equilíbrio emocional baseado na capacidade de discernir com sabedoria, sabendo que o mundo não gira à sua volta. Penso que reincorporar a espiritualidade nas nossas vidas pode nos dar a capacidade de olhar para além do nosso umbigo.

Como está o uso do seu “me”? Ele ajuda você a assumir responsabilidades ou segue acusando o outro?

Moacir Rauber

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O QUE FAZEMOS QUANDO NINGUÉM ESTÁ OLHANDO?

O que fazemos quando ninguém está olhando?

A praça pública da cidade tem uma fonte de água potável onde crianças, trabalhadores, idosos, moradores e transeuntes bebem água e brincam. Certo dia, um adulto que tinha um compromisso por perto e estava com os sapatos sujos de barro resolveu lavá-los na fonte. Pensou: “Ninguém está vendo… Lavo e logo a água fica limpa de novo!”

É uma situação simples, mas revela muito sobre nosso comportamento como humanidade: a primazia do interesse individual sobre as necessidades comuns. Essa forma de viver expõe outros sintomas, como a diluição entre o certo e o errado, o moral e o imoral, num tempo em que se misturam virtual e físico, ficção e realidade, artificial e natural, antinatural e sobrenatural.

Em suma, um exemplo cotidiano que revela uma sociedade em movimento — não necessariamente em evolução, pois evoluir nos conduziria à maturidade por meio da sabedoria e do discernimento. Você percebe maturidade, sabedoria e discernimento nesse relato? Não parece, porque maturidade exige olhar das telhas para cima, não apenas das telhas para baixo.

A maturidade requer sabedoria e discernimento para que as decisões de alguém considerem o impacto sobre outras pessoas. Cronologicamente, costuma-se situá-la entre a juventude e a velhice, na vida adulta. Entretanto, a maturidade comportamental refere-se ao estado em que o indivíduo atinge sua plenitude — uma verdadeira evolução. Nem todos os adultos e idosos chegam a esse estágio, pois é preciso aprender a discernir com sabedoria ao perceber o mundo que existe fora de suas casas. Muitos olham apenas para dentro do próprio telhado.

O que significa discernir com sabedoria? Por um lado, discernir é a capacidade de fazer boas escolhas; por outro, a sabedoria é o caminho para adquirir conhecimentos que nos deem ferramentas para isso. Portanto, discernimento é a aptidão para escolher com critérios que nos aproximem do que buscamos, sabendo que não basta olhar para dentro de casa, porque cada ação também repercute para fora. Discernir vem do latim discernere, que significa “decidir”. Já sabedoria tem origem no latim sapere, que se refere à manifestação de quem sabe com profundidade, fruto de estudos e experiências, e que exige moderação e equilíbrio. Para ser moderado e equilibrado, não basta olhar para baixo ou para dentro: é essencial olhar para fora. Por isso, discernir com sabedoria exige maturidade.

Acrescento ainda que há um falso antagonismo criado pelo conceito de tolerância, que contribui para diluir os limites entre certo e errado, moral e imoral, sacrificando a maturidade comportamental. A tolerância é importante, mas não é neutra. Quando não acompanhada de sabedoria, transforma-se em condescendência, na qual se opta por não assumir posicionamentos. Particularmente, penso que, muitas vezes, a tolerância tem sido usada para afrouxar limites, não para aproximar-nos da maturidade.

A maturidade reconhece que o virtual pode ser real, pois, assim como o físico, pode produzir alegria e felicidade ou tristeza e sofrimento. Sabe que a ficção precisa de espaço para nossas abstrações, mas entende que a realidade deve ser cuidada para o bem comum. Exige cuidado com o natural, sabendo que o artificial é apenas fruto de nossas elucubrações. Reconhece o sobrenatural, ao mesmo tempo em que entende que o antinatural nos conduz à extinção.

Por fim, é fundamental que o discernimento com sabedoria nos conduza à maturidade para compreender que, ao lavar os sapatos num espaço comum, também manchamos o espaço privado. Um gesto simples que revela um egocentrismo predominante, no qual só importa aquilo que me importa. A maturidade nos convida a olhar para dentro de nossa casa com a consciência de que ela está no mundo.

O que você faz quando ninguém está olhando pode ser visto? Se sim,

você é adulto. Tem maturidade.

Moacir Rauber

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O PESO DO “EU IDEAL”: VOCÊ SABE DIZER “NÃO” PARA VOCÊ?

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Você sabe dizer “não” para você?

O evento buscava apresentar as melhores práticas de gestão para alcançar as metas da organização. O último palestrante conduziu sua fala com maestria, mantendo o público conectado. Quase ao final, afirmou:

— Você é o único responsável pelo seu sucesso. Vibre alto, atraia o positivo e manifeste sua melhor versão. Transforme seus sonhos em realidade agora!

Aplaudimos intensamente. A energia emanada contagiava, renovando as intenções para mais um período de trabalho em que cada um é, ao mesmo tempo, senhor e escravo de si mesmo. Trata-se de uma crítica à produtividade ou ao desejo de realizar sonhos? Não. É um convite ao discernimento entre o “Eu Real” e o “Eu Ideal”.

O “Eu Real” reconhece o cansaço, as fragilidades, as incertezas e as limitações que nos permitem crescer. Já o “Eu Ideal” nos pressiona a buscar uma versão perfeita de nós mesmos, sem limites para as realizações. Essa busca incessante nos conduz ao cansaço, à exaustão, à depressão e ao colapso emocional.

No livro Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han descreve a transição da sociedade disciplinar para a sociedade de desempenho. Na primeira, obedecíamos a alguém — um chefe, o dono da empresa ou qualquer figura de autoridade. Alguém ordenava, e nós cumpríamos. Parecia duro. Na segunda, a sociedade de desempenho, o chefe ou o dono já não exerce tanto poder, pois conquistamos a liberdade de escolha. Podemos obedecer ou não. A obediência agora é a nós mesmos. Entretanto, a pressão interna que exercemos é maior do que a anterior. Tornamo-nos escravos de nós mesmos na busca pelo “Eu Ideal”.

A sociedade de desempenho nos adoeceu. Os números de pessoas à beira de um colapso mental — e de tantas outras que já colapsaram — mostram que, ao sermos nossos próprios chefes, a pressão aumentou. Quem é o único responsável pelo próprio desempenho realiza um movimento de coerção livre para maximizar a produtividade. Assim, tornamo-nos simultaneamente exploradores e explorados, carrascos e vítimas, senhores e escravos na busca implacável pelo “Eu Ideal”.

A busca pela versão perfeita de si mesmo é uma cilada que nos coloca em competição constante conosco. Como empresário, sou o mais duro senhor de escravos de mim mesmo. Como colaborador, a presença permanente de um “ideal” inalcançável me conduz ao esgotamento. Na sociedade de desempenho, somos o que produzimos, porque somos, ao mesmo tempo, produtores e produtos. Em qualquer cenário, a coerção interna é dura, cruel e implacável, resultando em sensação de fracasso, esgotamento físico e quebra emocional. A pior concorrência não está no outro; está dentro de nós. Nessa corrida, a vitória sempre se transforma em derrota. Por isso, é essencial aprender a dizer “não” para si mesmo.

Mais uma vez: não se trata de rejeitar a produtividade, mas de fazer escolhas livres que nos permitam encontrar o “Eu Real”.

Quem é o “Eu Real”? É o “Eu” que nos coloca em contato com fragilidades e forças, vícios e virtudes, competências e incompetências, possibilidades e limitações. Reconhecer a importância de dizer “não” para si mesmo é exercer a liberdade. Trata-se de recuperar a potência negativa — a possibilidade de não fazer — como uma escolha positiva. A potência de agir é essencial, mas a potência de não agir também é.

A afirmação de que cada um é responsável pelo próprio sucesso tem sua verdade, mas cabe ao “Eu Real” definir o preço dessa busca para não morrer tentando alcançar o “Eu Ideal”. É preciso aprender a dizer “não”.

Você sabe dizer “não” para você mesmo?

SE DEUS EXISTE, ELE NÃO É VOCÊ!

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SE DEUS EXISTE, ELE NÃO É VOCÊ!

Escutar uma conferência sobre os cinco sentidos de Chesterton com uma abordagem não convencional, é um exercício de despojamento de nossa suposta importância. A reflexão nomeia os sentidos: (1) corpóreos, (2) sobrenatural, (3) crítico, (4) comum e (5) de humor.

Ao finalizar a intervenção, ele afirma:

— Deus existe e não é você. Por isso, relaxa!

O sentido de humor esteve presente.

Como os cinco sentidos apresentados se expressam nas organizações?

Os sentidos corpóreos que aprendemos na escola são: o tato, que se manifesta na “flor da pele”; a visão, que traz imagens e informações sobre luz, escuridão e sombra; a audição, que nos brinda com o som e o silêncio; o olfato, que registra os odores à nossa volta; e o paladar, que nos conecta com os sabores. Eles integram o sistema sensorial que nos oferece informações sobre o ambiente em que vivemos. Os sentidos corpóreos nos permitem desfrutar dos prazeres da vida; contudo, é importante desenvolver a razão e a vontade para não nos tornarmos escravos deles. Você domina os sentidos corpóreos ou é dominado por eles?

O sentido sobrenatural é um dos menos explorados por nós nos diferentes ambientes. É natural olhar para uma flor e ficar encantado com sua beleza; porém, ao não saber quem a criou e como ela surgiu, abrimos espaço para o sobrenatural. Quando a razão não abarca plenamente o ambiente natural, a lógica nos conduz ao reconhecimento do sobrenatural. Entretanto, muitas vezes desviamos nosso comportamento para o antinatural, destruindo o ambiente em que vivemos. Você reconhece a beleza do ambiente natural em que está ou o contamina?

O sentido crítico é o exercício da razão na busca pelo conhecimento e tem sido confundido com o império do pensamento dominante. Muitas pessoas, ao iniciar o dia, organizam-se a partir dos likes que esperam receber, tornando-se reféns da aprovação alheia. O sentido crítico, entretanto, organiza o dia a partir da própria consciência, ainda que em contraposição ao pensamento dominante. Assim, a capacidade de discernimento é ativada para diferenciar o bem e o mal; o belo e o feio; o correto e o incorreto. Com o sentido crítico, reconhece-se o sobrenatural, evita-se o antinatural e cuida-se do natural. Só assim deixamos de ser escravos do nosso tempo. Como você organiza o seu dia?

E o senso comum — o que fazer com ele? Entender, aprofundar e aproveitar o conhecimento empírico que carrega. Trata-se de um dos sentidos mais subvalorizados pelo predomínio do cientificismo. O senso comum traz em si um conhecimento prático acumulado em séculos de experimentação, desenvolvendo em nós o instinto da verdade para compreender o mundo de forma coerente. Ele confronta o conhecimento abstrato, que muitas vezes deriva em erudição sem sentido, com a sabedoria prática, que vê o sublime nos eventos mais simples, ainda que sem explicação científica. O senso comum é um conhecimento que se recusa a demonstrar o evidente, reconhecendo o sobrenatural e desfrutando do natural.

Por fim, o sentido de humor.

Logo após dizer que Deus existe e que nenhum de nós o É, ele complementou que ter bom humor é o senso comum em forma de dança. É ele que nos permite rir com os outros e rir de nós mesmos, fazendo da vida um baile contínuo. Nessa abordagem, desenvolvemos um processo curativo de não levar a vida tão a sério, porque “ninguém sai vivo dela”. O senso de humor combate a tristeza, diminui a ansiedade e ilumina a alma.

Porém, alguém disse:

— É lindo, mas eu sou ateu…

Seguiu-se um silêncio respeitoso e uma resposta direta:

— Se Deus não existe, então você não é Deus. Relaxa…

A conferência, baseada no pensamento de Chesterton, integra alma e corpo; natural e sobrenatural; erudição e simplicidade; seriedade e senso de humor, a partir de uma “visão paciente e um coração ardente”.

Você tem os cinco sentidos de Chesterton?

Moacir Rauber

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VOCÊ SABE COMUNICAR?

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VOCÊ SABE COMUNICAR?

O diretor chega à empresa para começar o dia e, como sempre, reúne a equipe para revisar as tarefas delegadas, as responsabilidades assumidas e os resultados a serem entregues. Cada um dos membros está ciente de seus afazeres, que estão alinhados com as suas competências. Em uma das interações, ele pergunta:

— O que aconteceu com a entrega prevista para ontem, que não foi feita?

O responsável começa a responder:

— Parece-me que houve…

E segue com uma explicação baseada no entendimento daquilo que supostamente havia ocorrido, segundo a sua interpretação dos fatos. Qual é o problema desse tipo de explicação? Ela nos afasta da realidade objetiva. O que se pode fazer para melhorar a comunicação organizacional? O essencial é saber diferenciar fatos de interpretações.

Em tempos de dados, informações e conhecimento abundantes, não há espaço para divagar sobre acontecimentos que impactam os resultados organizacionais. Em primeiro lugar, é preciso apurar os fatos para depois passar às interpretações. Mas qual é a diferença entre fatos e interpretações? Com relação à pergunta do diretor, o membro da equipe, ao começar a explicação com “Parece-me…”, notadamente invocou uma interpretação, uma vez que se tratava daquilo que ele pensava que poderia ter acontecido. Um fato se refere a algo que, uma vez descrito, pode ser comprovado por qualquer membro da organização. Por exemplo, o que aconteceu para que a entrega não fosse feita? “O caminhão quebrou…”, “O motorista faltou…” ou ainda “Os produtos não estavam prontos…” são fatos. Entretanto, muitas vezes não apuramos os fatos e seguimos com as nossas interpretações, que podem ser diferentes das dos demais membros, gerando conflitos.

Destacam-se também as diferenças entre observações e opiniões; notícias e narrativas; convites e intimações; pedido e exigência; e, por fim, que um aviso não é improviso. Não saber a diferença atrapalha a comunicação.

Para este texto, observação refere-se a um estudo, a uma pesquisa ou a uma análise que pode ser atestada por outras pessoas, enquanto a opinião é derivada da compreensão individual do fenômeno observado.

Notícia deveria ser somente o fato em si, e não uma narrativa em que o jornalista conduz a fala de modo a endossar as suas crenças sobre o ocorrido.

Entendo que, para melhorar a comunicação, é essencial ter clareza sobre essas diferenças, para poder começar a falar com base em fatos, observações e notícias que possam ser comprovadas por qualquer pessoa. Depois de uma descrição comprovável, a interpretação será bem recebida, a opinião será respeitada e a narrativa poderá ser construída em equipe. Com essa abordagem, a realidade é a mesma para todos, respeitando-se o direito de cada um de vê-la em conformidade com as suas crenças.

Outras diferenças importantes que permitem melhorar a comunicação: convite e pedido não se referem a intimação e exigência, uma vez que os primeiros aceitam um “não” como resposta, enquanto os segundos não. Nas organizações, um convite e um pedido tendem a ser mais efetivos que as intimações e as exigências.

Por fim, aviso não é improviso.

Um ponto central no processo comunicacional é que, ao se dar um aviso, fazer um comunicado ou delegar uma tarefa, alguns elementos devem estar claros: quem, para quem, o quê, quais as condições e quanto tempo para atender ou realizar aquilo que foi avisado, comunicado ou delegado. Por que destaco isso? Porque são inúmeros os líderes que começam a dar um aviso, a fazer um comunicado ou a delegar uma tarefa e terminam emitindo a sua opinião em uma improvisação que se afasta da objetividade necessária para o assunto.

Finalmente, ao participar de uma reunião organizacional, tenha em mãos dados, informações e conhecimento que sejam fatos, observações e notícias comprováveis. Em seguida, caso necessário, faça a sua interpretação, dê a sua opinião e desenvolva sua narrativa. Por fim, faça um convite ou um pedido sabendo que o “não” será bem-vindo. Desse modo, os confrontos e os conflitos desaparecem enquanto a comunicação floresce.

Por isso, tenha tudo organizado, porque avisar, comunicar e delegar não é improviso — é competência comunicacional.

Moacir Rauber

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AINDA QUE DÊ ERRADO… ESTÁ CERTO!

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AINDA QUE DÊ ERRADO… ESTÁ CERTO!

Ele se preparava para uma cirurgia que poderia ser complicada. Minha esposa e eu o escutávamos falar sobre o procedimento, o período de internação e o tempo de recuperação. Ao final, fiz o comentário: Vai dar tudo certo! Ele ficou calado e, em seguida, respondeu:

– Verdade, porque ainda que dê errado, vai estar certo!

Ficamos um pouco encabulados com a sua resposta, porém ela traz várias reflexões possíveis, entre elas: (1) manter o foco naquilo que está sob controle; (2) desenvolver a confiança nas relações pessoais e profissionais; e (3) nutrir a força individual da fé e da esperança. Como essa postura pode nos ajudar no nosso dia a dia organizacional, familiar e social?

O autor coreano Byung-Chul Han fala da “sociedade do cansaço”, em que saímos de um modelo disciplinar para um modelo de desempenho. Abandonamos — em parte — o hábito de obedecer, seguir regras e tradições, e adotamos a autonomia, acreditando poder tudo. Criamos a falsa ideia de que somos autossuficientes e não precisamos seguir as ordens de ninguém, apenas as próprias. Entretanto, isso é um engano.

Quando deixamos de seguir ordens ou comandos externos em nome da autorregulamentação, criamos um chefe muito mais exigente do que qualquer outro poderia ser: nós mesmos. Desse modo, temos sistematicamente aprendido a nos “amar” e a projetar o “Eu Ideal”, que supostamente nos levaria à plenitude, acreditando que sou especial porque sou único. Então, todos são especiais, porque todos são únicos. Ao nos voltarmos para nós mesmos, passamos da autoestima para o egoísmo, no qual acredito ter o direito a tudo. Entretanto, quando não alcanço o êxito que penso merecer pelo fato de ser único, frustro-me e deprimo-me, esgotando-me de maneira a gerar uma sensação de cansaço contínuo. Já não posso criticar o meu chefe, porque ele sou eu. Nos arrogamos uma importância tamanha que passamos a atribuir todo o nosso sucesso apenas a nós mesmos. Cremos que a autonomia deveria nos manter no topo, uma vez que “eu posso”. Ao perceber que, muitas vezes, não podemos tudo, nos deparamos com o “Eu Real”, que nos leva ao burnout, consumindo-nos pela frustração de não sermos tão especiais quanto acreditávamos.

A vida, cedo ou tarde, nos coloca em situações que nos fazem lembrar de que, muito mais do que independentes ou interdependentes, somos dependentes. Para isso, basta recordarmos o ciclo da vida: ao nascer, dependemos; ao aproximarmo-nos da morte, dependemos; e por que entendemos que, ao viver, seria diferente? Entendo que nada muda — apenas a nossa falsa percepção de controlar tudo à nossa volta.

Byung-Chul Han resgata a importância do equilíbrio entre a vida contemplativa e a vida ativa, pois é a arte de contemplar que nos permite compreender o motivo da atividade. Citando São Gregório, ele afirma que um bom programa de vida exige tempo de silêncio intencional, “de tal modo que a chama da contemplação que se acende no coração transmita toda a sua perfeição à atividade”. Dessa maneira, é na contemplação que se dá sentido ao que se faz, mantendo o foco naquilo que está ao alcance da própria ação. Ao compreender o sentido daquilo que se faz, estabelece-se a confiança que desperta a fé e a esperança, transcendendo do ativo para o contemplativo. O cansaço de uma atividade que tem sentido é prazeroso: não consome, alimenta.

Ao retornar à fala do amigo que se preparava para uma intervenção cirúrgica, estava clara a confiança que ele tinha nas pessoas que fariam o procedimento. Ele também demonstrava consciência ao se ocupar apenas daquilo que estava sob seu controle, mantendo a fé e a esperança. Por fim, entendo que sua postura nos conecta diretamente com o transcendente, que a contemplação nos permite acessar. Saímos do “Eu Ideal” e nos contentamos com o “Eu Real”.

E você, está satisfeito com o seu “Eu Real”, ainda que a vida não tenha sido como imaginada?

Moacir Rauber

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