
VOCÊ AINDA TEM ESPERANÇA?
Outro ano que está mais próximo do fim do que do início — lógica que também se aplica à própria vida para quem já passou dos sessenta. Provavelmente, há menos caminho a percorrer do que aquele já percorrido. Ainda assim, para aquele homem, suas lutas internas continuavam intensas. Ele acreditava ser dono do próprio destino, alguém capaz de controlar cada passo dado. Mais uma vez repetia internamente: A escolha é minha. O destino é meu! — com a segurança de quem se considera senhor de si mesmo.
Porém, o imprevisto acontece e, diante dele, as dúvidas se manifestam:
— Não sei… parece que as mãos tremem. Não dá para segurar tudo.
A cabeça pende sobre o peito. A autoconfiança de quem crê que pode determinar todos os passos, o tempo todo, vacila. O cansaço de quem acredita ter tudo sob controle aparece no tremor das mãos. O gesto de baixar a cabeça revela a desesperança. O que fazer? Diante da queda da autoconfiança, é preciso confiança. Diante do cansaço, descanso. Diante da desesperança, esperança. A resposta parece simples, mas o caminho até ela exige entrega, disciplina e põe à prova a fé.
Como manter a autoconfiança? Resgatando a confiança. A confiança, como substantivo, representa a crença plena em algo ou alguém. Sua ação está em confiar, que significa fiar com alguém, entregar-se. Nas últimas décadas, porém, a confiança foi deslocada para a autoconfiança, excluindo o outro. Já não era necessário confiar em algo transcendente ou em alguém. A autoconfiança supervalorizou a autoestima, o “eu em primeiro lugar”, o poder das próprias escolhas e da autodeterminação rumo ao sucesso como dono do próprio destino. Entretanto, a realidade mostra outra coisa: a autoconfiança é importante, mas sem algo ou alguém em quem confiar, ela perde força. Com quem você fia junto? A quem você se entrega?
Como descansar em tempos de hiper desempenho? O descanso pede disciplina. Parece estranho falar em disciplina para descansar, já que descanso remete à folga, repouso e calma. Mas o prefixo des- indica o fim de uma ação — algo difícil num mundo cheio de estímulos. Muitas vezes, mesmo sem estar trabalhando, não se está descansando, porque as ações não cessam. A televisão permanece ligada, o celular ativo e as redes sociais nos mantêm em alerta. Não há folga, não há repouso, e a alma não encontra calma, não descansa. Parece que o espírito está sempre empenhado em algo; por isso, além do desempenho, é importante desempenhar-se do sentimento de estar em dívida, de estar empenhado. Assim, descansar exige disciplina. Como está o seu descanso? Desempenhaste a tua alma?
Por fim, como alimentar a esperança? Mantendo a fé. Baixar a cabeça diante do inesperado revelou a desesperança daquele senhor que acreditava ter tudo sob seu controle, faltava a fé. Para alimentar a esperança, acredito que a humildade exerce papel essencial: a partir dela, a autoconfiança permite que se cultive a confiança em algo ou alguém além de si mesmo; o agir abre espaço para o descanso de esperar com paciência. Enfim, aceitar que nem tudo está sob meu controle é uma realidade, mas para isso, é preciso fé — que não é apenas um termo religioso. Fé envolve confiança nas relações humanas e para a possibilidade transcendental. Ao confiar e esperar com fé, surge a esperança: a expectativa positiva de que aquilo que não está sob meu controle não precisa me afligir. Você sabe esperar?
Diante da fala daquele homem, desesperançado porque não podia controlar tudo, talvez a humildade para relaxar e aprender a respirar — para confiar, ter fé e esperar — seja um antídoto à ansiedade. Entendo que, com fé, se confia; ao confiar, se descansa; ao descansar, se espera; e, assim, ressurge a esperança.
Pode levantar a cabeça.
Moacir Rauber
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