
CULPA E SENTIDO: QUAL O PAPEL DA VOCAÇÃO?
Eram 5h da manhã e ele já estava acordado, porque a ansiedade não o deixava descansar. Pensava que precisava levantar cedo para adiantar algumas tarefas que haviam ficado pendentes do dia anterior. A esposa também estava acordada e comentou sobre o exagero da autocobrança. Ele, porém, contra-argumentava, dizendo que todos os demais estão produzindo, estudando e aprendendo, e que não há espaço para relaxar, já que é importante conquistar o próprio lugar. Em seguida, surgem as comparações: ele tem 28 anos e, em sua análise, há outros com vinte anos ou menos que já estão à sua frente. A esposa reforça que ele está cansado e que precisaria descansar um pouco mais. Ele responde:
— Não consigo, me sinto culpado…
Ela suspira.
O que fazer diante da cultura do hiper-rendimento? Acredito que é importante descobrir a vocação. Não se trata de uma visão romantizada, em que a vocação transforma o trabalho em felicidade plena. É um convite para que cada um descubra e trabalhe na própria vocação. A descoberta da vocação pode ocorrer em diferentes profissões, levando à realização pessoal e ajudando a evitar a ansiedade.
Qual é a minha vocação e como descobri-la? Comecemos entendendo vocação como a aptidão natural para algo; portanto, ela vem de dentro. Não é preciso inventar a vocação, porque ela já está em você. Por isso, é essencial trazê-la à luz, identificando as habilidades que cada um manifesta com mais naturalidade. Essas habilidades o colocarão diante da própria vocação, que pode se conectar com uma ou com várias profissões.
Vejamos: você se sobressai em habilidades manuais. Em quais profissões pode descobrir a sua vocação? São muitas as áreas que exigem talento com as mãos e precisão. Assim, você pode encontrar sua vocação sendo artesão, músico, carpinteiro, marceneiro, cirurgião, joalheiro, tatuador — enfim, em todas elas é possível atuar e acolher a vocação manual.
E aqueles que exibem habilidades orais? Conectem-se com profissões que exigem fluência verbal ou capacidade de negociação para explorar a própria vocação, que pode se manifestar como professor, vendedor, psicólogo, padre, jornalista, entre outras.
E para quem tem habilidades de escrita? Há diversas profissões que permitem desenvolver a vocação por meio da produção textual e da criação de conteúdo. Por exemplo, é possível trabalhar como redator, blogueiro, produtor de conteúdo, revisor de textos, escritor, roteirista etc., sempre atuando alinhado à vocação.
Assim seguimos com as diferentes habilidades que revelam a vocação em outras áreas, como a aptidão física — presente em profissões como pedreiro, garçom, agricultor, bombeiro, segurança, vigilante — ou a aptidão intelectual, essencial para economistas, pesquisadores, cientistas e outras profissões que exigem análise, abstração ou tomada de decisão complexa.
Portanto, ainda que certas habilidades sejam resultado de uma aptidão interna que nos aproxima da vocação, é essencial estudar, aprender, praticar e trabalhar com a consciência do sentido daquilo que se faz. Saber que aquilo que se faz serve para alguém faz com que a vocação se manifeste em áreas muito diferentes daquelas que foram inicialmente sonhadas. “Só trabalho naquilo que me faz feliz” está mais associado àqueles que inventam uma vocação, enquanto aqueles que descobrem a vocação são felizes ao perceber que servem, fazendo os outros felizes. Eis o papel da vocação na construção de um mundo melhor.
Depois de suspirar, ela diz:
— Sabe que isso que você está fazendo não é sustentável?
— Pois é… o que fazer?
Cada um tem as suas respostas, porém um dos caminhos para diminuir a ansiedade e recuperar a esperança passa pela descoberta da vocação e do sentido daquilo que se faz. Lembre-se: a vocação é exigente, porém não é exaurente. A vocação provoca, mas não consome. A vocação pede entrega, mas não exige que você sucumba (burn out). A vocação requer dedicação e trabalho, porque, com ela, você serve. Enfim, a vocação não esgota; ela traz à luz os teus talentos divinos, que existem para servir.
O que você faz, faz sentido? Para quem?
Moacir Rauber
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Inspirado: Monsenhor Munilla













