
A CURIOSIDADE QUE MATA…
A discussão era sobre o uso de celulares e telas interativas pelas crianças, estabelecendo regras de acesso às redes sociais. As justificativas apresentadas apontavam os impactos negativos no desenvolvimento neurológico, emocional e físico das crianças, inclusive a diminuição de sua capacidade de aprendizagem. Assim, a coordenadora do grupo dizia:
— No longo prazo, teremos adultos menos inteligentes e gerações emocionalmente inseguras…
Na apresentação, ela exibia dados que mostravam que crianças com uso excessivo de telas interativas sofrem atraso no desenvolvimento cognitivo e de linguagem, com consequente dificuldade de foco, diminuição da memória e redução das habilidades motoras. Também padecem de deterioração da saúde emocional e comportamental, o que as leva ao isolamento social, a dificuldades de autocontrole e ao surgimento da ansiedade pela dependência digital. Por fim, segundo a conferencista, apresentam diminuição da saúde física em função do sedentarismo provocado pelo uso prolongado das telas. Ela concluía que crianças superestimuladas perdem os benefícios da curiosidade que impulsiona a aprendizagem, desenvolve o conhecimento e é caminho para a sabedoria. O problema estava posto. Uma solução seria limitar o uso das telas interativas para preservar as crianças do vício digital.
O problema identificado é real, e as restrições propostas como parte da solução para as crianças são uma alternativa. Entretanto, pergunto: quem regula aqueles que regulam as crianças? Qual é o índice de dependência digital entre jovens, adultos e idosos? E quais são as consequências?
Entendo que o problema vai além das crianças, porque se trata de uma pandemia que atravessa todas as idades, gerações e estratos sociais. A curiosidade já não impulsiona a aprendizagem, não desenvolve o conhecimento nem a sabedoria. A curiosidade despertada pelas telas digitais tem levado ao emburrecimento coletivo de jovens, adultos e idosos — cada vez mais conectados às telas e desconectados da realidade.
Qual pesquisa mostra isso? Não é necessário nenhum estudo aprofundado para constatar o fenômeno. Basta estar numa sala de espera de consultório, no banco, na padaria, no aeroporto ou na rodoviária para observar que mais de oitenta por cento das pessoas estão com os olhos voltados para o celular. Estão desligadas do mundo ao redor, conectadas à superficialidade dos estímulos constantes.
A tela não para. Uma mensagem após a outra, ainda que sem importância, toma a atenção. Um vídeo se segue ao outro numa sequência interminável que mistura humor, publicidade, alguma informação e muita desinformação. A curiosidade nos estimula a buscar o vídeo seguinte para mais uma dose de humor, para a publicidade de algum produto milagroso ou para alguma informação que nos parece indispensável. Tudo passa muito rápido. Há um ditado que diz: “A curiosidade é a mãe da sabedoria” (Olavo Bilac), mas, neste caso, a curiosidade mata a aprendizagem, o conhecimento e a sabedoria. Está associada ao aumento da ignorância, da idiotização e da incultura geral.
Não somente as crianças são vítimas da pandemia das telas interativas; temos jovens que não interagem com outros jovens; casais que não mais conversam entre si; e idosos que estão cada vez mais isolados, todos emburrecendo pela curiosidade do vídeo seguinte.
O tema da palestra eram as crianças, mas o problema é maior. A palestrante falava da relação direta entre a diminuição da capacidade de aprendizagem individual e o fato de a inteligência artificial concentrar o conhecimento humano. Por um instante, ela parou de falar, porque, ao observar o público, percebeu que boa parte dele estava com o celular na mão. Ela podia confirmar que a curiosidade, como vício de estímulos constantes, matava a aprendizagem, travava o conhecimento e impedia o surgimento da sabedoria. As pessoas estão viciadas e dependentes de estímulos e não se aprofundam nos conteúdos, fazendo com que a curiosidade não cumpra o papel de produzir conhecimento e, no longo prazo, destrua a sabedoria.
Somos viciados e dependentes das telas ao desenvolver uma curiosidade superficial que mata a aprendizagem, o conhecimento e a sabedoria. Uma vez morta a aprendizagem, somos idiotas em construção!

Moacir Rauber
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