
O que fazemos quando ninguém está olhando?
A praça pública da cidade tem uma fonte de água potável onde crianças, trabalhadores, idosos, moradores e transeuntes bebem água e brincam. Certo dia, um adulto que tinha um compromisso por perto e estava com os sapatos sujos de barro resolveu lavá-los na fonte. Pensou: “Ninguém está vendo… Lavo e logo a água fica limpa de novo!”
É uma situação simples, mas revela muito sobre nosso comportamento como humanidade: a primazia do interesse individual sobre as necessidades comuns. Essa forma de viver expõe outros sintomas, como a diluição entre o certo e o errado, o moral e o imoral, num tempo em que se misturam virtual e físico, ficção e realidade, artificial e natural, antinatural e sobrenatural.
Em suma, um exemplo cotidiano que revela uma sociedade em movimento — não necessariamente em evolução, pois evoluir nos conduziria à maturidade por meio da sabedoria e do discernimento. Você percebe maturidade, sabedoria e discernimento nesse relato? Não parece, porque maturidade exige olhar das telhas para cima, não apenas das telhas para baixo.
A maturidade requer sabedoria e discernimento para que as decisões de alguém considerem o impacto sobre outras pessoas. Cronologicamente, costuma-se situá-la entre a juventude e a velhice, na vida adulta. Entretanto, a maturidade comportamental refere-se ao estado em que o indivíduo atinge sua plenitude — uma verdadeira evolução. Nem todos os adultos e idosos chegam a esse estágio, pois é preciso aprender a discernir com sabedoria ao perceber o mundo que existe fora de suas casas. Muitos olham apenas para dentro do próprio telhado.
O que significa discernir com sabedoria? Por um lado, discernir é a capacidade de fazer boas escolhas; por outro, a sabedoria é o caminho para adquirir conhecimentos que nos deem ferramentas para isso. Portanto, discernimento é a aptidão para escolher com critérios que nos aproximem do que buscamos, sabendo que não basta olhar para dentro de casa, porque cada ação também repercute para fora. Discernir vem do latim discernere, que significa “decidir”. Já sabedoria tem origem no latim sapere, que se refere à manifestação de quem sabe com profundidade, fruto de estudos e experiências, e que exige moderação e equilíbrio. Para ser moderado e equilibrado, não basta olhar para baixo ou para dentro: é essencial olhar para fora. Por isso, discernir com sabedoria exige maturidade.
Acrescento ainda que há um falso antagonismo criado pelo conceito de tolerância, que contribui para diluir os limites entre certo e errado, moral e imoral, sacrificando a maturidade comportamental. A tolerância é importante, mas não é neutra. Quando não acompanhada de sabedoria, transforma-se em condescendência, na qual se opta por não assumir posicionamentos. Particularmente, penso que, muitas vezes, a tolerância tem sido usada para afrouxar limites, não para aproximar-nos da maturidade.
A maturidade reconhece que o virtual pode ser real, pois, assim como o físico, pode produzir alegria e felicidade ou tristeza e sofrimento. Sabe que a ficção precisa de espaço para nossas abstrações, mas entende que a realidade deve ser cuidada para o bem comum. Exige cuidado com o natural, sabendo que o artificial é apenas fruto de nossas elucubrações. Reconhece o sobrenatural, ao mesmo tempo em que entende que o antinatural nos conduz à extinção.
Por fim, é fundamental que o discernimento com sabedoria nos conduza à maturidade para compreender que, ao lavar os sapatos num espaço comum, também manchamos o espaço privado. Um gesto simples que revela um egocentrismo predominante, no qual só importa aquilo que me importa. A maturidade nos convida a olhar para dentro de nossa casa com a consciência de que ela está no mundo.
O que você faz quando ninguém está olhando pode ser visto? Se sim,
você é adulto. Tem maturidade.
Moacir Rauber
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Inspirado no Decálogo da Maturidade Mosenhor Munilla








